O perigo da abundância infinita e barata
O que a inteligência artificial de hoje copia da energia nuclear dos anos 50
Resposta curta
Quando uma tecnologia é anunciada como abundante e barata demais para ser medida, vale perguntar quem se beneficia dessa abundância e quem fica de fora. A energia nuclear recebeu exatamente essa promessa nos anos 1950 e terminou concentrada em poucos países, com a justificativa de segurança funcionando como barreira geopolítica. Com a inteligência artificial, pouco mais de 30 países têm capacidade computacional real para treinar modelos avançados — o que torna a concentração de infraestrutura uma questão jurídica e regulatória, não apenas econômica.
Lá nos anos 1950, Lewis Strauss, um dos nomes mais influentes da política nuclear americana, declarou ao público que a energia seria tão abundante que seria “barata demais” para ser medida.
Quando alguém diz que algo é “barato demais para medir”, o que está por trás é uma ideia simples: a de que o custo de produzir é tão baixo que monitorar o consumo não faz sentido, pois seria mais caro.
Vem comigo que isso tem mais a ver com privacidade e proteção de dados do que pode parecer.
Na época, isso virou quase um mantra tecnocrático. A promessa oficial de uma era nuclear limpa, segura e ilimitada. Pelo menos no discurso político. Nós, hoje, sabemos exatamente como essa história acabou. Energia nuclear não tem sido muito presente no nosso dia a dia, digamos assim.
Agora, décadas depois, surge um déjà vu tecnológico, com a inteligência artificial fazendo o papel da nova “fonte inesgotável”. Recentemente, o CEO da OpenAI afirmou que, no futuro próximo, a inteligência será tão abundante quanto a energia prometida nos anos 50 e que a “inteligência será barata demais para precisar ser medida”, algo assim.
A frase dele é quase uma citação, mas reembalada, mudando apenas o contexto. Para mim, é uma fantasia de abundância infinita. E esse paralelo me acende um alerta.
A promessa reciclada: inteligência para todos
Com modelos como GPT-4, GPT-5, Claude, Gemini e LLaMA, tarefas que exigiam formação especializada, equipes completas e semanas de dedicação passaram a caber em alguns prompts bem escritos — e, por favor, com resultados revisados.
A narrativa é sedutora, promovendo um acesso igualitário à capacidade cognitiva, produtividade multiplicada, criatividade liberada, competição global nivelada.
Mas, como advogada que trabalha com tecnologia e privacidade, eu aprendi a fazer uma pergunta simples sempre que ouço promessas desse tipo: quem realmente se beneficia dessa abundância? E quem fica de fora?
Jamais consegui encontrar “todo mundo” como resposta da primeira pergunta.
Lições incômodas vindas da energia nuclear
A energia nuclear também foi vendida como democratizadora. Mas o que aconteceu foi o oposto: poucos países dominaram a tecnologia, e a justificativa oficial — segurança — serviu como barreira geopolítica para manter o controle concentrado.
Com a IA, estamos assistindo a um roteiro parecido, mas em ritmo acelerado e proporção sem precedentes.
A corrida silenciosa pelo poder computacional
Enquanto empresas americanas constroem estruturas gigantescas de treinamento de IA, pesquisadores da América Latina fazem o que podem com equipamentos ultrapassados, salas improvisadas e orçamento limitado.
O laboratório da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, virou símbolo disso. O professor Wolovick descreve um cenário em que o talento existe, mas o que falta é máquina, espaço, infraestrutura, estabilidade.
E isso não é apenas triste. É uma assimetria que define quem cria tecnologia e quem só consome, ficando na dependência de poderes externos.
Segundo levantamentos internacionais, pouco mais de 30 países têm capacidade computacional real para treinar modelos avançados. O resto, literalmente, assiste à corrida. Os dados são claros: Estados Unidos e China concentram a infraestrutura crítica; a África quase não aparece no mapa; a América do Sul existe apenas como rodapé estatístico; e o Brasil, apesar de seu potencial, ainda está longe da linha de frente.
Como jurista, eu vejo isso não só como desigualdade tecnológica, mas como desigualdade regulatória e estratégica: quem controla a infraestrutura controla os termos do debate, incluindo segurança, limites, riscos, regras. É um novo tipo de imperialismo, agora mediado por flops, GPUs e data centers.
Uma escassez fabricada, não natural
Mesmo nas regiões onde a IA chega, o acesso não é aberto: versões completas exigem assinatura, modelos são restringidos ou moderados, ferramentas “open source” estão cada vez menos open, e regulações são moldadas por quem tem mais poder de lobby.
Quando a justificativa é “segurança”, eu sempre lembro algo que aprendi na prática do Direito: risco é o argumento perfeito para justificar controle. Da proliferação nuclear ao modelo de IA fechado, a lógica se repete — protege-se o mundo restringindo o mundo.
A desigualdade que surge agora não é só digital, mas cognitiva
Se só alguns países, e poucas empresas, têm acesso ao poder computacional necessário para construir e operar superinteligência, nasce algo novo: uma desigualdade de capacidade mental assistida.
Não é sobre quem tem mais renda, educação ou conexão. É sobre quem tem um “segundo cérebro” e quem não tem.
Como profissional que trabalha com proteção de dados, eu vejo isso com preocupação redobrada. Porque grupos com acesso a superinteligência passam a prever comportamento em escala, moldar mercados, influenciar política, tomar decisões com base em informações assimétricas e definir futuros enquanto o restante do mundo apenas reage.
É um abismo que não existia antes e que não para de crescer.
A abundância ilimitada
A promessa de inteligência ilimitada é bonita, convincente e vende bem. Mas, olhando para a história, tecnologias com potencial de redistribuir poder quase nunca são distribuídas. Elas são gerenciadas. Moderadas. Apropriadas. Controladas.
E a IA não parece ser exceção.
Se não questionarmos agora — infraestrutura, acesso, governança, transparência — corremos o risco de viver a repetição de um padrão histórico: uma tecnologia nasce como promessa libertadora e termina como ferramenta de concentração de poder.
Perguntas frequentes
Qual o paralelo entre inteligência artificial e energia nuclear?
Nos anos 1950, Lewis Strauss declarou que a energia nuclear seria barata demais para ser medida. A promessa não se concretizou: a tecnologia ficou concentrada em poucos países, com a segurança servindo de justificativa para manter o controle restrito. O discurso atual sobre inteligência abundante repete essa estrutura quase literalmente.
Quantos países conseguem treinar modelos avançados de IA?
Segundo levantamentos internacionais, pouco mais de 30 países têm capacidade computacional real para treinar modelos avançados. Estados Unidos e China concentram a infraestrutura crítica, a África quase não aparece no mapa e a América do Sul figura como rodapé estatístico.
Por que a concentração de infraestrutura de IA é uma questão jurídica?
Porque quem controla a infraestrutura controla os termos do debate regulatório: define o que se considera seguro, quais limites são aceitáveis e quais riscos entram na conversa. A desigualdade deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser regulatória e estratégica.
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